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terça-feira, 29 de dezembro de 2009

Setor produtivo do Brasil

1 INTRODUÇÃO
Para que a almejada liderança internacional dos setores produtivos do Brasil
seja alcançada, a tese ora defendida pelo mercado é a de que a ação comercial
brasileira passe a adotar práticas utilizadas pelos principais mercados industriais
do mundo. Essa é uma realidade do sistema agroindustrial do café brasileiro,
que busca transitar de um contexto que historicamente privilegia a produção
em detrimento da industrialização a um sistema de comercialização de produtos
industrializados de modo mais eficiente. Atualmente, o País sustenta estruturas
produtivas à montante, perdendo rentabilidade e market-share no mercado internacional
de café, que atualmente negocia US$ 100 bilhões/ano, conforme dados
da Oxfam (2002).
Nesse sentido, a ruptura do paradigma de mero exportador de commodities
converge diretamente sobre a forma de pensar o agronegócio café e, respectivamente,
nos processos de evolução da ação dos agentes produtivos, em especial a
indústria, em relação à ação internacional, a qual ainda não ultrapassa 1,2% do
montante comercializado internacionalmente (FREITAS, 2006).
O que torna a Alemanha melhor do que o Brasil em termos de desempenho
internacional no mercado de cafés com maior valor agregado? A coordenação institucional,
a infra-estrutura (logística e pólos industriais) ou sua natural participação
como país membro da União Européia?
Como se trata de um estudo sobre cadeias produtivas, na primeira parte
apresenta-se a revisão de literatura, que discorre sobre as principais estruturas
de coordenação, em especial o supply chain management, netchain, networks e subsistema
estritamente coordenado.
Já na segunda parte, apresentam-se os métodos de pesquisa adotados para
a construção deste estudo. Na terceira parte, são exibidos os resultados e discussões
do trabalho, seguidos pela parte final, na qual se encontram as conclusões.
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• RAM – REVISTA DE ADMINISTRAÇÃO MACKENZIE •
Volume 9, n. 5, 2008, p. 59-81
2 REVISÃO DE LITERATURA
A evolução tecnológica introduzida pela Revolução Industrial fomentou o
ambiente para que os limites das firmas e até mesmo das nações fossem rompidos,
mudando o conceito do que até então denominávamos organização (CLEGG;
HARDY, 1998). Emerge um novo modelo que privilegia conexões entre os agentes
produtivos em detrimento do modelo fordista, na expectativa de subsidiar
maior competitividade setorial. Organizações se fundem, formam joint-ventures,
abrem seus capitais a investidores, na expectativa de que a estrutura unitária dê
lugar ao que atualmente se convenciona de alianças estratégicas, redes, cadeias,
complexos ou sistemas produtivos (CLEGG; HARDY, 1998).
Cada vez mais as organizações buscam o delineamento de uma estratégia
competitiva favorável dentro de sua indústria, considerado aqui o conceito porteriano,
em função de ser nesse ambiente o locus onde se dá a concorrência (PORTER,
1989). Esse espaço, também chamado de ambiente de negócios, pode ser
dimensionado por fronteiras, as quais definem se determinada indústria tem sua
competitividade limitada ao mercado doméstico ou caracteriza-se plena amplitude
de sua ação, por também atuar no mercado externo, podendo ser inclusive um
player global (PORTER, 1989; JOHANSON; VAHLNE, 1986; FREITAS, 2006).
Para maior compreensão sobre os termos mercado e competitividade aos
quais se referem neste estudo, lança-se mão da perspectiva oferecida por Harrison
e Kennedy (1997). Para os autores, o mercado é definido como um lugar
onde todos os atuais e potenciais compradores e vendedores de produtos podem
interagir em um lugar e tempo específico, enquanto a competitividade, nesse
ambiente, é cunhada como a capacidade de criar e disponibilizar valor e preços
iguais ou menores do que os praticados pela concorrência.
Porter (1986) expõe que é a estrutura da indústria que define o nível de
concorrência, dado que tem forte influência na determinação das regras competitivas
do jogo, assim como as estratégias das empresas participantes desta.
A competitividade deixa então de ser avaliada sob a perspectiva neoclássica
(HARRISON; KENNEDY, 1997)1 e passa a ser observada sob a perspectiva das
cinco forças competitivas porterianas (poder de barganha dos fornecedores,
ameaças de novos entrantes, rivalidade entre concorrentes, poder de barganha
de clientes e ameaças de produtos substitutos). A avaliação dessas forças é fundamental
para a análise de concorrência e determinação da cadeia de valores
e vantagens competitivas que uma indústria detém (PORTER, 1986; 1989). O
estabelecimento dessas, por sua vez, favorece a visualização dos elos entre os
1 Historicamente, os economistas neoclássicos examinam a estrutura da competitividade a partir da relação
entre a origem da competitividade e os custos e demandas de estrutura por parte da firma.
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• O QUE O KAFFEE DE LÁ TEM QUE O CAFÉ DAQUI NÃO TEM •
MARA LUIZA GONÇALVES FREITAS
agentes, os quais podem ser demandantes de otimização de processos quanto
à coordenação de atividades (PORTER, 1989). Tais elos sinalizam a formação
de redes de negócios, em que o relacionamento entre firmas se dá por meio de
uma conectividade ilimitada e abrangente, inclusive por meio da conexão indireta
(BECHTEL; JAYARAM, 1998).
A rigor, a conectividade envolve a integração de negócios, por meio do
fluxo de informações e materiais ao longo de uma indústria, tanto vertical (supply
chain management) (COOPER; LAMBERT; PAGH, 1997; COOPER; LAMBERT,
2000) quanto horizontalmente (network e netchain) (CLARO, 2004; LAZZARINI;
CHADDAD; COOK, 2001), o que pode ou não redundar em um subsistema
estritamente coordenado (ZYLBERSZTAJN; FARINA, 1999).
2.1 SUPPLY CHAIN MANAGEMENT – SCM
A adequação estratégica tem demandado cada vez mais da indústria um
comportamento integrado verticalmente, denominado supply chain. Essa coordenação
pode ser definida como o gerenciamento de múltiplos níveis de relacionamento
e negócios (COOPER; LAMBERT; PAGH, 1997; LAMBERT; COOPER,
2000). Para Bechtel e Jayaram (1998, p. 15), o SCM assemelha-se a um conceito
de ecossistema empresarial que envolve a interconectividade entre processoschave
dentro e entre firmas.
Por meio do desenvolvimento do SCM, criam-se condições para a agregação
de valor aos materiais, com o aumento do fluxo de informações, intensificando
as ações de marketing junto ao consumidor (BECHTEL; JAYARAM, 1998, p. 19).
Esse esforço contribui para a criação de um ambiente de redução de incertezas,
tanto por parte dos usuários finais quanto dos vendedores, além do estabelecimento
de rotinas de transações e redução do número de contratos entre os agentes,
dado o aumento da confiança entre os agentes (COUGHLAN et al., 2002).
Nesse sentido, a cadeia de suprimentos tem se constituído em um importante
conceito para a formatação de parcerias, alianças estratégicas e outras relações
cooperativas (BECHTEL; JAYARAM, 1998). De acordo com Lambert e Cooper
(2000, p. 69), todas as firmas participam de uma cadeia de suprimentos, desde
a ligada à produção de materiais até o último consumidor. A relação entre elas
depende de deterem algum nível de proximidade entre suas atividades, caracterizadas
como membros primários e membros secundários.
Para Lambert e Cooper (2000, p. 70), os membros primários são classificados
como empresas autônomas ou unidades de negócios individuais responsáveis
pela agregação de valor, por meio do gerenciamento ou operacionalização
da comercialização de um produto específico para um cliente ou mercado espe64
• RAM – REVISTA DE ADMINISTRAÇÃO MACKENZIE •
Volume 9, n. 5, 2008, p. 59-81
cífico. Os membros secundários são as empresas responsáveis pela geração dos
recursos, conhecimentos, utilidades, patrimônio demandados pelos membros
primários do canal (LAMBERT; COOPER, 2000).
A coordenação, nesse caso, é classificada pela literatura como uma estrutura
de canal verticalizada, cujo nível dependerá da maior proximidade e o número
de agentes envolvidos. Em ambientes verticalizados, de acordo com Machado
(1998, p. 67), a coordenação permite arranjos econômicos/institucionais, geradores
de transferência de recursos, seja por meio do mercado spot, integração
vertical de estágios tecnologicamente separáveis em uma mesma firma ou ainda
por estabelecimento de contratos formais (parcerias, franchising, licenciamento,
entre outros).
De posse dessa organização em nível vertical, torna-se possível a integração
horizontal entre diversos estratos de cadeias de suprimentos, ou seja, relações
comuns entre fornecedores de uma categoria de matéria-prima, industriais de
determinado produto, distribuidores e consumidores (LAZZARINI; CHADDAD;
COOK, 2001; CLARO, 2004). Na literatura a conectividade entre os agentes,
tanto vertical quanto horizontalmente, recebe o nome de network, definida por
Claro (2004, p. 36) como um conceito que se refere às relações interorganizacionais
de firmas que possuem funções semelhantes no mercado. Esse conceito
é entendido pelo autor como análogo à perspectiva apresentada no modelo de
netchain analysis, proposto por Lazzarini, Chaddad e Cook (2001).
A evolução do ambiente institucional conduziu também a evolução do modo
de transacionar entre os diversos agentes ao longo de uma estrutura vertical e
horizontal. As conexões passaram a ser permeadas por contratos, visando a redução
das incertezas e assimetria de informações, bem como agilidade por meio da
especificação de ativos e aumento da freqüência nas relações ex-ante e ex-post. A
nova conjuntura conduziu a modos de governança (mercado, hierarquia e híbrido)
compatíveis com o nível de competitividade de cada mercado. Essa estrutura
emerge ante uma necessidade de inserção de tecnologias e criação de salvaguardas
e barreiras à entrada a concorrentes, conduzindo a aglutinação de firmas com
mesmos interesses, seja em formato de redes ou clusters, aperfeiçoados pelo nível
de relacionamento entre os agentes (COASE, 1991; WILLIAMSON, 1983, 1989,
1991a, 1991b, 1996, 2000, 2005; RIORDAN; WILLIAMSON, 1985).
O network e o netchain podem ser considerados uma sofisticação do SCM, em
função deste enfatizar regras de gerenciamento distintas do fluxo de materiais,
informações e decisões (LAZZARINI; CHADDAD; COOK, 2001): o network centra-
se no relacionamento e o netchain na interdependência em determinado nível
e na determinação de estratégias interorganizacionais (CLARO, 2004; LAZZARINI;
CHADDAD; COOK, 2001).
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MARA LUIZA GONÇALVES FREITAS
2.2 NETWORKS, NETCHAIN E SUBSISTEMA ESTRITAMENTE
COORDENADO
A intensa evolução tecnológica, registrada ao longo do último quarto de
século, provocou mudanças profundas no comportamento de indivíduos, firmas,
instituições e nações, dado o maior fluxo de informações, organização da
escala de produção (global) e, principalmente, a interação entre redes empresariais
(CASTELLS, 1999, p. 119). Essas redes geram, de acordo com Claro (2004,
p. 17), importantes implicações no relacionamento entre compradores e fornecedores
(buyer-supplier), em função da relação direta com o desenvolvimento dos
capitais humano e social (inteligência comercial, nível educacional, socialização,
competências essenciais, emoções, monitoramento). Granoveter (1973), citado
por Claro (2004, p. 18) define network como

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